Golpe do falso advogado usa números reais para enganar vítimas
Por Redação
26/10/2026 às 10:41:42 | | views 66
Criminosos falsificam identificadores de chamadas e utilizam dados de processos judiciais para cobrar taxas inexistentes. OAB-SP registrou 4.388 denúncias da fraude em pouco mais de um ano e meio
O golpe do falso advogado ganhou uma nova estratégia para enganar vítimas: a falsificação do número de telefone exibido durante a ligação. Com a técnica, conhecida como spoofing, criminosos conseguem fazer chamadas que aparentam vir do advogado responsável pelo processo ou do próprio escritório, aumentando a credibilidade da abordagem.
A fraude combina números telefônicos falsificados com informações verdadeiras de processos judiciais, como nomes de clientes, números de ações e movimentações recentes. De posse desses dados, os golpistas informam sobre uma suposta liberação de indenizações, precatórios ou outros valores e exigem pagamentos antecipados para que o dinheiro seja disponibilizado.
Em fevereiro de 2026, a Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) informou ter recebido 4.388 denúncias relacionadas ao golpe em pouco mais de um ano e meio.
“O acesso a informações reais do processo não comprova que a pessoa que entrou em contato seja quem diz ser. Mesmo quando o número exibido na tela é conhecido, o cliente deve confirmar a solicitação por outro canal antes de qualquer decisão”, alerta Carla Reis, supervisora de Atendimento e Comunicação da Aparecido Inácio e Pereira Advogados Associados.
Como funciona a fraude
A falsificação da identificação de chamadas permite alterar o número que aparece na tela do celular, fazendo com que a ligação pareça ter origem em outro telefone. A prática não significa necessariamente que o aparelho do advogado tenha sido invadido ou clonado.
Para tornar a abordagem mais convincente, os criminosos recorrem a informações disponíveis em sistemas processuais, redes sociais e outras fontes. Em seguida, simulam contatos profissionais e alegam que houve uma decisão favorável ou que determinado valor está disponível para recebimento.
Na etapa seguinte, solicitam pagamentos referentes a supostas taxas, impostos, custas cartorárias ou despesas administrativas, geralmente por meio de transferências via Pix. Os valores, porém, são direcionados a contas controladas pelos fraudadores.
“Os criminosos combinam informações verdadeiras com uma identidade falsa para dar credibilidade à abordagem. Por isso, conhecer detalhes do processo ou exibir o número do advogado na tela não é suficiente para garantir que o contato seja legítimo”, explica Carla Reis.
Perfis falsos e pressão por pagamentos
Além das ligações, os golpistas podem criar perfis falsos no WhatsApp usando nome e fotografia de advogados, apresentar-se como integrantes do departamento financeiro de escritórios ou simular contatos de servidores de tribunais.
Outra estratégia é o envio de documentos falsificados, como alvarás e decisões judiciais, e de links para páginas fraudulentas que solicitam informações pessoais e bancárias. Os dados obtidos também podem ser utilizados em outras modalidades de fraude.
Entre os principais sinais de alerta estão pedidos de pagamento com prazo curto, pressão para realizar um Pix imediatamente, transferências para contas de terceiros e solicitações de senhas ou códigos de autenticação.
Como se proteger
A principal recomendação é não confiar apenas no número exibido na tela, no nome salvo na agenda ou nos documentos apresentados. Ao receber uma ligação ou mensagem inesperada sobre a liberação de valores judiciais, a orientação é encerrar o contato e procurar o advogado por um canal independente.
O telefone pode ser conferido no contrato de prestação de serviços ou no site oficial do escritório. Também é importante consultar o andamento do processo no portal do tribunal responsável e confirmar diretamente com o advogado a existência e a finalidade de qualquer cobrança.
Antes de realizar uma transferência, o cliente deve verificar a titularidade da conta indicada. A ferramenta ConfirmADV, disponibilizada pela OAB, permite consultar se um profissional está regularmente inscrito na advocacia, mas essa verificação não substitui a confirmação da solicitação financeira com o escritório.
“Antes de transferir qualquer quantia, o cliente deve confirmar com o escritório se a cobrança existe e a que ela se refere. Não se deve fazer pagamentos apenas com base em uma ligação ou mensagem, mesmo quando o contato parece conhecido”, orienta a especialista.
O que fazer em caso de fraude
Quem receber uma abordagem suspeita deve guardar mensagens, áudios, capturas de tela, números utilizados e documentos enviados. A tentativa de golpe pode ser comunicada ao escritório cuja identidade foi utilizada, à Polícia Civil, por meio de boletim de ocorrência, e à OAB.
Se a vítima já tiver realizado uma transferência via Pix, deve entrar em contato imediatamente com o banco pelos canais oficiais, relatar a fraude e solicitar a análise para eventual devolução pelo Mecanismo Especial de Devolução (MED). O procedimento não garante a recuperação do dinheiro, pois o resultado depende das condições da operação e da disponibilidade dos recursos.
“Com a falsificação da identificação telefônica, a conferência do número já não basta. É preciso verificar a solicitação por um canal independente antes de compartilhar dados ou realizar qualquer transferência de valores”, conclui Carla Reis.
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