Serviços perdem força e fecham semestre em alta de 2%
Por Redação
12/08/2026 às 15:19:01 | | views 39
Setor fica estável em junho, acumula alta de 2,6% em 12 meses e encerra primeiro semestre com ritmo inferior ao registrado no ano passado
O setor de serviços encerrou o primeiro semestre de 2026 sem conseguir sustentar um ritmo consistente de expansão. Depois de registrar crescimento de 2% na primeira metade do ano, a atividade ficou estável em junho, na comparação com maio, e acumulou alta de 2,6% em 12 meses.
O resultado reforça o cenário de acomodação da economia brasileira em um momento em que o governo Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o desafio de transformar a recuperação dos últimos anos em crescimento mais robusto e disseminado.
Os serviços são particularmente relevantes para essa leitura porque concentram atividades intensivas em mão de obra e com forte presença no consumo das famílias e nas empresas, como transporte, alimentação, turismo, tecnologia da informação e serviços profissionais.
Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o setor cresceu 0,4% no segundo trimestre em relação aos três primeiros meses do ano. Na comparação com junho de 2025, houve alta de 2%.
O problema está menos no número positivo do que na trajetória. O setor praticamente não saiu do lugar no mês e vem alternando avanços e quedas desde o início do ano.
Em janeiro, a variação mensal foi de 0%. Em fevereiro, houve alta de 0,1%. Março registrou queda de 1%, seguida por avanço de 1,2% em abril e nova retração, de 0,2%, em maio. Em junho, a atividade voltou a ficar estável.
A sequência ajuda a explicar a avaliação de Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa do IBGE, de que os serviços estão próximos do maior nível da série histórica, mas sem apresentar uma trajetória clara de aceleração. “Não há indícios de escalada, tampouco trajetória descendente”, afirmou.
Na prática, o indicador descreve uma economia que não desaba, mas também não consegue ganhar velocidade.
Crescimento fica concentrado
O desempenho do primeiro semestre também revela uma expansão desigual entre os segmentos.
Serviços de informação e comunicação lideraram, com crescimento de 6,8% ante os seis primeiros meses de 2025. Serviços profissionais, administrativos e complementares avançaram 2,4%, enquanto os serviços prestados às famílias cresceram 2%.
Na direção oposta, transportes, serviços auxiliares aos transportes e correio recuaram 1,2%. O segmento de outros serviços ficou estável.
Dos 166 tipos de serviços pesquisados pelo IBGE, 47,6% apresentaram crescimento no primeiro semestre.
A fotografia é menos confortável do que o número cheio de 2% sugere. Quase metade das atividades investigadas teve expansão, enquanto setores relevantes para a circulação de mercadorias e para a atividade econômica, como transportes, ficaram no campo negativo.
Além disso, o ritmo está menor do que o observado no ano passado. No primeiro semestre de 2025, a expansão acumulada dos serviços era de 2,7%.
Para Rodrigo Lobo, a taxa atual representa um crescimento “menos intenso” em relação aos semestres anteriores.
Juros e atividade
O quadro ocorre em um ambiente de política monetária ainda restritiva e de crescimento econômico projetado em ritmo moderado. O mercado acompanha justamente a capacidade de a economia absorver o custo do crédito e manter investimentos e consumo.
No setor de serviços, essa questão é especialmente relevante. Empresas dependentes de financiamento, consumo das famílias e investimentos corporativos tendem a sentir mais rapidamente períodos de atividade econômica menos dinâmica.
O resultado de junho, portanto, não indica uma recessão no setor. Mas tampouco oferece sinais de uma nova rodada de aceleração.
Para o governo, a combinação representa um desafio adicional. A economia mantém crescimento, mas em ritmo que pouco se aproxima de uma expansão capaz de produzir uma sensação mais disseminada de vigor entre empresas e consumidores.
Tecnologia é exceção positiva
O segmento de informação e comunicação continua sendo o principal destaque da pesquisa. A expansão de 6,8% no primeiro semestre mostra que atividades ligadas à tecnologia, telecomunicações e serviços digitais seguem crescendo acima da média do setor.
O resultado ajuda a evidenciar uma mudança estrutural na economia brasileira: enquanto atividades mais tradicionais encontram dificuldade para acelerar, negócios associados à digitalização e à tecnologia mantêm taxas mais elevadas.
Esse movimento também tem impacto sobre o mercado de trabalho e sobre os investimentos empresariais, ao aumentar a demanda por serviços de maior valor agregado.
Turismo perde força
O turismo apresentou uma situação ainda mais fraca. O índice de atividades turísticas caiu 3,4% em junho, na comparação com maio.
No acumulado do primeiro semestre, a retração é de 0,9%. Em 12 meses, porém, o segmento ainda apresenta alta de 1%.
O índice reúne 22 das 166 atividades pesquisadas pelo IBGE, incluindo hotéis, agências de viagens, bufês e transporte aéreo de passageiros.
Mesmo estando 6,6% acima do nível pré-pandemia, o turismo permanece 6,2% abaixo do recorde alcançado em dezembro de 2024.
O contraste é relevante: mais de seis anos depois do início da pandemia, o setor ainda não recuperou integralmente o pico alcançado antes da atual fase de desaceleração.
Economia termina semestre sem impulso
O desempenho dos serviços reforça uma característica da economia brasileira em 2026: crescimento positivo, mas sem força suficiente para configurar uma aceleração.
O setor está 19,9% acima do nível registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia, e apenas 0,3% abaixo do recorde histórico de outubro de 2025. Ou seja, o problema não é falta de recuperação do nível de atividade, mas a dificuldade de avançar a partir dele.
É uma diferença importante.
A economia brasileira não está diante de uma queda generalizada dos serviços. O que os dados mostram é uma atividade próxima do topo, porém incapaz de romper esse limite.
Para o governo, o desafio passa a ser menos comemorar a manutenção do crescimento e mais criar condições para que ele volte a ganhar velocidade. O número positivo de 2% no semestre ajuda a sustentar o discurso de uma economia em expansão. A sequência de resultados mensais, porém, conta uma história mais contida: o setor chega ao fim do primeiro semestre sem impulso novo e com sinais de acomodação.
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