Mulheres lideram, mas afastamentos por burnout seguem em alta
Por Redação
21/07/2026 às 21:40:28 | | views 126
Alta da participação feminina em cargos de comando coincide com crescimento dos afastamentos por transtornos mentais; especialistas defendem revisão de práticas de liderança
As mulheres alcançaram participação recorde em cargos de liderança nas empresas brasileiras, mas também seguem concentrando a maior parte dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais e burnout. A combinação desses indicadores tem impulsionado o debate sobre a necessidade de revisar modelos de gestão e organização do trabalho.
Segundo o relatório Women in Business 2025, da Grant Thornton, as mulheres ocupam 36,7% dos cargos de alta liderança em empresas de médio porte no Brasil, percentual acima da média global, de 34%. O avanço reflete o aumento da participação feminina em posições de decisão nas últimas décadas.
Ao mesmo tempo, dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, 346.613 mulheres foram afastadas por transtornos mentais e comportamentais, ante 199.641 homens. Nos casos de burnout, foram registrados 5.413 afastamentos entre mulheres e 2.185 entre homens.
Os números, por si só, não permitem estabelecer uma relação direta entre o avanço da liderança feminina e o aumento dos afastamentos por transtornos mentais. Para o consultor empresarial Flávio Lettieri, eles evidenciam a necessidade de revisar modelos de gestão e critérios de desempenho adotados pelas empresas.
"O mercado mudou profundamente, mas muitos modelos de gestão continuam baseados na lógica da disponibilidade permanente", afirma Lettieri. Segundo ele, organizações ainda costumam associar comprometimento à presença constante, respostas imediatas e jornadas prolongadas, práticas que podem aumentar o desgaste das equipes.
A discussão também envolve a chamada carga mental. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, mostram que as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, quase o dobro das 11,7 horas registradas entre os homens.
Para a psicóloga Laura Zambotto, essa combinação de responsabilidades profissionais e domésticas pode contribuir para o esgotamento. Entre os primeiros sinais estão alterações no sono, dificuldade de concentração, fadiga persistente e irritabilidade, sintomas que muitas vezes permanecem sem tratamento até comprometerem a capacidade de trabalho.
O tema ganhou relevância também no ambiente regulatório. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), fatores psicossociais passaram a integrar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), exigindo das empresas medidas para identificar e prevenir situações relacionadas ao estresse ocupacional, sobrecarga e assédio.
Segundo a advogada trabalhista Bruna Ribeiro, a mudança amplia a responsabilidade das organizações na prevenção de riscos ligados à saúde mental. "O cumprimento da norma não se limita à elaboração de documentos, será cada vez mais importante demonstrar que existem medidas efetivas de prevenção, treinamento de lideranças, canais de escuta e monitoramento dos fatores psicossociais" afirma.
O debate ocorre em um momento de mudanças no mercado de trabalho, marcado pelo avanço da participação feminina em cargos de liderança, pelo aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental e pela ampliação das exigências para prevenção de riscos psicossociais nas empresas.
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