Financiamento de veículos escancara dependência do crédito
Por Redação
13/04/2026 às 09:18:03 | | views 843
Avanço de 12,8% no trimestre é puxado por usados e ocorre em meio a juros elevados e pressão sobre a renda das famílias
O crescimento de 12,8% no financiamento de veículos no primeiro trimestre de 2026, apontado em balanço da B3, foi apresentado como sinal de aquecimento do mercado automotivo. Por trás dos números, no entanto, o avanço reforça a dependência do consumo ao crédito em um cenário ainda marcado por juros elevados e renda pressionada.
Entre janeiro e março, foram financiadas 1,89 milhão de unidades, o melhor desempenho para o período desde 2008. O resultado, embora expressivo, é sustentado principalmente pela venda de veículos usados, que somaram 1,21 milhão de unidades — mais de 60% do total.
O dado é visto por economistas como um indicativo de perda de poder de compra. Com preços mais altos nos veículos novos, consumidores recorrem ao mercado de usados e, sobretudo, ao financiamento para viabilizar a aquisição.
“O crescimento do crédito não necessariamente reflete um mercado mais saudável, mas sim uma maior necessidade de parcelamento para sustentar o consumo”, avalia o economista Marcel Balassiano, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.
A expansão foi puxada principalmente pelo Crédito Direto ao Consumidor (CDC), modalidade tradicional oferecida por bancos e financeiras, que cresceu 14,3% no período. Para o professor de finanças Ricardo Rocha, esse movimento acende um alerta.
“Em um ambiente de juros ainda elevados, o aumento do crédito para consumo pode comprometer a renda futura das famílias, especialmente em financiamentos longos, como os de veículos”, afirma.
O avanço também ocorre em paralelo à alta nos preços dos veículos novos. Em março, os modelos zero quilômetro registraram aumento médio de 0,86%, segundo a própria B3, em um movimento de recomposição de margens após períodos de promoções.
Para analistas do setor, essa combinação — crédito em expansão e preços em alta — tende a criar um ciclo de maior endividamento. O consumidor paga mais caro pelo veículo e dilui o impacto em parcelas mais longas, muitas vezes com custo financeiro elevado.
O economista Sergio Vale destaca que o crescimento disseminado em todas as regiões do país não necessariamente indica melhora estrutural. “Pode ser um sinal de recuperação pontual da demanda reprimida, mas ainda não configura um ciclo sustentável de expansão”, afirma.
Outro ponto de atenção é o desempenho mais acelerado das motos, que cresceram 18,1% no trimestre. Embora o dado seja positivo para o setor, especialistas apontam que ele também reflete mudanças no perfil do consumo, com maior busca por alternativas mais baratas de mobilidade — muitas vezes associadas ao trabalho informal e por aplicativos.
Já o resultado de março, com alta de 27,6% na comparação anual, reforça a leitura de um mercado aquecido no curto prazo, mas não afasta incertezas sobre a continuidade desse ritmo ao longo do ano.
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